Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007
Até parece que é novidade
Graças a esse prestimoso órgão de comunicação social nacional, o Diário de Notícias, ficamos a saber que só o PCP mantém agenda entre o Natal e o Ano Novo.

Essencialmente, somos informados que todos os líderes partidários, somando-se-lhes Sócrates e Cavaco, tiram férias do Natal até depois do Ano Novo, alguns aproveitando para passear um pouco no estrangeiro.

O que eu não percebo, embora naturalmente me dê um certo gozo ler isto num jornal, é o motivo de isto ser notícia. Então mas já não se sabe que o PCP não tira férias? Que a sua actividade dura o ano inteiro, organizada de forma a nunca parar por motivo de férias de militantes ou dirigentes?

Claro está, só num país em que os outros Partidos estão sempre de férias permanentes, fora os períodos eleitorais (sendo o Bloco uma pequena excepção, tendo uma certa actividade, exponencialmente empolada pela comunicação social), é que pode ser notícia o PCP não parar a sua actividade entre o Natal e o Ano Novo.

No fundo, é uma das diferenças fundamentais entre o PCP e os demais partidos, a diferença entre os Partidos eleitorais/parlamentares e um Partido de massas, que de forma a se manter como tal, mantém uma actividade diária nas empresas, nas escolas, nas ruas. Que, de resto, o distingue dos demais, aos olhos do povo português.

De igual modo, é uma barbaridade referir-se a Festa do Avante como a reentré política do PCP. Tal é feito por comparação com os demais Partidos, que metem férias quando a Assembleia da República também o faz. E é feito precisamente para ofuscar o facto do PCP manter uma intensa actividade também durante o Verão, precisamente porque não depende do Parlamento para ter actividade.

Desse modo, procura-se, como sempre, procurar diluir as diferenças de fundo entre o PCP e os demais Partidos.

À luz disso, esta não-notícia até acaba por ser um belo docinho de Natal.


Publicado por Alfredo às 15:27
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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007
Jaques Gonçalves e a simpatia natalícia


Para quem não sabe, Jaques Gonçalves é o Presidente do Grupo Impala. Para quem também não sabe o que é o Grupo Impala, é nada menos que o proprietário de diversas publicações de qualidade reconhecida internacionalmente, por exemplo: Focus, Maria, Nova Gente, Vip, TV 7Dias, Segredos de Cozinha, Mulher Moderna, Crescer, Boa Forma, 100% Jovem e ainda A Próxima Viagem. Bem se vê, edições para a nata da intelectualidade nacional.

O problema é que, aparentemente, nem a intelectualidade nem a mediocridade nacional reconhecem a estas publicações o seu justo valor. Daí, o Grupo Impala encontra-se em periclitante situação económica.

Culpa? Naturalmente, os mesmos de sempre. Os trabalhadores do Grupo Impala que, como é óbvio, tal como todos os outros trabalhadores, denotam "falta de profissionalismo (...), em prejuízo dos demais e das empresas"
não fazem nada e só pensam no seu salário exorbitante, que ainda por cima devem querer aumentar.

Mas Jaques Gonçalves é magnânimo. Pensa em tudo, e decidiu aproveitar a época natalícia, porventura porque os seus trabalhadores se juntaram a toda a família, podendo então conjuntamente debater os seus pecados laborais, para anunciar a falta de dedicação dos pérfidos "colaboradores".

Claro está, Gonçalves é justo e não absolutista, pelo que não atribui a todos as mesmas culpas. Por exemplo, a si próprio não atribui culpa alguma. Nem sequer por só criar publicações abaixo do medíocre, para as encerrar de seguida, contratando e despedindo como quem muda de camisa. Naturalmente, a culpa não é sua, é do povo que não quer ler o que de melhor se publica no país.

Toda a sua justeza se manifesta na sua ira divina, quando anuncia que por quem trabalha mal pagará quem trabalha bem, em suma, "que pagará o justo e o pecador".

Essencialmente, todos os seus justos trabalhadores pagarão pelos pecados do seu patrão.

PS: O meu "patrão" é muito melhor, deu-me quatro prendas este Natal. Um saco, uma t-shirt, um guarda-chuva e ainda um pin. Tudo chiquérrimo. Já me estou a ver dia 25 a causar sensação quando for exibir-me no Dolce Vita.




Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006
O Novelo de Lã: um conto de natal

Era uma vez... um novelo de lã. E este novelo até poderia ser bem bonito, se não fosse por um triste facto: os lindos fios que o compunham estavam todos enrodilhados, numa grande confusão, de tal modo que pouco se percebia de que era afinal feito aquele novelo.

Pior, cada vez que o próprio novelo se tentava desenrodilhar, ou não o conseguia de todo ou, quando alcançava algum sucesso, acabava sempre por se enrodilhar de uma nova forma.

E sempre que alguma alma, ainda que bondosa, tentava desentrançar os fios do novelo de lã, também não obtinha melhores resultados. Isto porque cada uma dessas boas almas tinha a sua própria visão do que devia ser o pequeno novelo, e soltavam os fios e voltavam a enrolá-los da forma que achavam melhor. Assim, por um lado havia quem soltasse os fios, mas depois enrolasse o pobre novelo da forma que achava mais bonita; por outro lado, havia também quem, após desenrodilhar os fios, os enrolasse novamente da forma que pensava ser melhor para o novelo.

No entanto, o pequeno novelo de lã acabava sempre de novo enrodilhado, e ninguém percebia porquê... A verdade é quando alguém tentava ajudar o pobre novelo, acabava sempre por em dada medida impôr a sua própria imagem do que aquele deveria ser. Uns enrolavam-no de novo como gostavam, outros como achavam que seria melhor para o novelo... E ninguém se lembrava de ajudar o novelo, simplesmente desenrodilhando-o, deixando ao seu próprio critério como se haveria de enrolar novamente!

Felizmente, um dia apareceram os Cavaleiros da Mesa Octogonal, cavalgando belas princesas com grandes peitos, e viram o que ainda ninguém tinha percebido! Assim, ajudaram o pequeno novelo de lã, apenas desembaraçando os seus fios. E deixaram-no a enrolar-se novamente da forma que mais lhe agradava...

Depois, os cavaleiros voltaram a montar as princesas tortulhudas e partiram em busca de outros pequenos novelos que da sua ajuda necessitassem. E o nosso novelo de lã, embora se tenha enrodilhado mais algumas vezes, aprendeu a desembaraçar-se; e assim viveu feliz para sempre...
_____________________________________


Bom, toda a história tem uma moral. Este pequeno "conto" resulta de uma conversa tida há alguns dias (noites) num bar cá da terra, por volta das 5h da matina, conversa essa com um amigo e o jovem do bar. Discutia-se o que é um amigo(a). Mas isto para além do que já se sabe, que é alguém que lá esté nos bons e maus momentos, que nos conhece bem e em que podemos confiar para expor os nossos problemas, e todos os demais blá blá blás... Até aqui era consensual; a discussão foi então como deve a amizade ser exercida.

É amigo aquele que passa a mão no pêlo e diz que tudo vai ficar bem, deixa lá isso e coisa e tal, isso passa e melhores dias virão, e outras tantas lenga-lengas, enfim tentando levar-nos ao que considera melhor para nós? Ou é amigo aquele que convictamente afirma que o que é preciso é fazer isto ou aquilo, para resolver a coisa há que fazer não sei o quê, portanto afirmando-nos as suas próprias ideias?

A resposta é... nenhum dos dois! Amigo é quem ajuda o indivíduo a compreender-se, para que por si só escolha o que para si é melhor; sem impingir o seu próprio caminho, tampouco sem o levar a seguir caminhos que não são o seu.

E donde vem o "conto". Foi o exemplo que dei. Quando temos a cabeça numa confusão, podemos imaginá-la como um novelo todo enrodilhado... Para resolver os problemas, há que desenrolar os vários fios, para que se possa perceber a lógica do novelo, e voltar a enrolá-lo como deve ser.

Ora, um amigo deve portanto ajudar a separar os vários fios e... mais nada. Para que, sem interferências, a pessoa decida por si só, como há-de enrolar tudo novamente. Ou seja, o amigo deve ajudar a pessoa a perceber-se quando está confusa, mas sem interferir na forma como o fará, deixando-a escolher o seu próprio caminho sem apontar nenhuma direcção. O amigo é, portanto, o Cavaleiro do "conto".

Por outro lado, não negligencio com isto as almas bondosas que tentaram ajudar o novelo de lã, cada uma à sua maneira. Também são, sem dúvida, amigos. Mas ao invés de deixar o novelo voltar a enrolar-se à sua maneira, afirmam como o deve fazer, enrolando-o de acordo com a sua própria visão, ou segundo o que consideram ser melhor para o novelo.

No entanto, não compreendem que embora ajudem a pessoa a perceber-se, ora indicam a sua própria forma de ver as coisas, ora indicam o que pensam ser melhor para o indivíduo em causa. Assim, embora sejam de facto amigos, e como tal devam ser afectuosamente considerados, não fazem de facto o melhor, pois não dão à pessoa espaço para crescer e decidir por si própria.

E a partir desta discussão, decidi escrever este texto sobre a amizade. Mas como o meu ponto de vista foi ilustrado com uma metáfora, apeteceu-me desenvolver a coisa e deu neste belo conto (ou não...).

foto: www.wovengems.com/.../colonial_wool_top.htm



Essencialmente, para o que me for apetecendo. Ideias sobre a sociedade, coisas da sociologia, análise de questões políticas... Comentários à actualidade, assuntos pessoais relativizados e quando me apetecer, também dá para chatear alguém.
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Sociólogo, 28 anos, residente em Coimbra. Bolseiro de investigação na área do insucesso e abandono escolares no Ensino Superior. Mestrando em "Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo".
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