Sexta-feira, 6 de Junho de 2008
Por terra, mar e ar... o crime continua.

 

São conhecidos casos de prisões ilegais e torturas a suspeitos de "terrorismo", noção na qual, como se sabe, cabe tudo e todos que desafiem o imperialismo, em prisões espalhadas por um conjunto de países, sendo a mais célebre a prisão de Abu-Ghraib no Iraque, mas igualmente em países europeus.

 

São igualmente conhecidos as passagens de aviões da CIA, com prisioneiros rumo à tortura, não somente pelo espaço aéreo europeu, mas igualmente aterrando em aeroportos de países da UE, entre os quais Portugal.

 

Agora, a moda imperial privilegia os barcos. De resto, não sei como não pensaram nisso antes, as águas internacionais são, por motivos óbvios, um local de eleição para a prática de crimes contra a humanidade.

 

A denúncia veio da organização britânica Reprieve, que já havia denunciado outras situações, nomeadamente os aviões em território português. Vários documentos da Reprieve sobre este tema podem ser lidos aqui, aqui, aqui e aqui.




Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007
Breves notas sobre o Kosovo, a autodeterminação e a soberania



Ultimamente, por maus motivos, tem-se falado muito no Kosovo que, é esperado, declarará unilateralmente a independência da Sérvia, a partir de 10 de Janeiro de 2008. Geralmente, como seria de esperar, tem-se falado muito e tem-se falado mal, por intenção ou ingenuidade.

 

Dito deste modo, poderia parecer que considero "maus motivos" falar-se da independência de um povo. Como é óbvio, não é o caso. Aliás, um dos aspectos curiosos neste assunto é a aparente inversão de ideais que parece grassar nos favoráveis e contrários à independência do Kosovo.


Deste modo, é interessante notar que aqueles que mais ferreamente sempre lutam contra a autodeterminação dos povos, leia-se direita e amplas franjas de uma certa esquerda, agora a defendem; do outro lado, que a esquerda a sério, mais a autodenominada esquerda democrática (leia-se PS e facção social-democrata do Bloco) e esquerda meio-termo (leia-se facção esquerdista do Bloco), agora sejam contra.


Ou seja, que quem defende a autodeterminação curda, palestiniana, basca ou corsa, por exemplo, é agora (unicamente) contra a kosovar, defendendo a soberania sérvia. E que quem nunca defendeu a autodeterminação desses mesmos povos, em nome da soberania dos países onde se "integram", agora defenda (unicamente) a dos kosovares.

 

Poder-se-ia sugerir, à partida, que existiria uma contradição entre soberania de um país a autodeterminação de povos que aí residam, semelhante à (suposta) contradição entre liberdade e igualdade. Seria, portanto, necessário decidir qual o ideal a defender. No entanto, estas são contradições no mínimo simplistas, no máximo puramente falsas.


Parece contraditório defender simultaneamente autodeterminação e soberania?

Não é. Porquê? Porque não existe um povo kosovar.

 

Posto simples e directo, aprofunde-se um pouco a questão. Noto no entanto, desde já, que não procuro fazer uma análise exaustiva da questão jugoslava, apenas sobre este aspecto específico da independência do Kosovo. A quem interessar o tema, aconselho vivamente a leitura de duas obras: "Quem Matou a Jugoslávia" de Milan Rádos, e "Cruzada de Cegos" de Diana Johnstone, entre outras naturalmente dignas de mérito (quando comecei a redigir este texto, tencionava deixar um link para um ensaio sobre o tema, da minha autoria, que agora lamentavelmente não consigo encontrar...).


Como é óbvio, não poderia nunca deixar de apoiar a autodeterminação de qualquer povo. Apoio a autodeterminação palestiniana, basca, corsa, curda e quaisquer outras de um povo, que efectivamente o seja. Ora, no Kosovo há sérvios e há albaneses, kosovares são mito para justificar uma independência injustificável por quaisquer critérios que não sejam o mais puro imperialismo.

 

Não entrando numa análise do papel do imperialismo europeu e norte-americano no desmembramento da Jugoslávia (tal, como referi, podem aprofundar nos textos suprareferidos), certo é que a independência do Kosovo inscreve-se precisamente no penúltimo passo deste processo de demolição de um Estado federado soberano, tendo o primeiro passo sido dado com a Eslovénia e sendo o último, prevê-se, a Vojvodina.

 

A Jugoslávia de construção socialista, não se vergava ao imperialismo. Mesmo nos seus últimos tempos, resistia à ofensiva europeia e norte-americana, sendo o centro dessa resistência, dentro da Jugoslávia, a Sérvia, e as suas partes mais frágeis a Eslovénia e a Croácia. Ora, não conseguindo vergar a Jugoslávia una, o imperialismo virou-se para uma estratégia tão antiga como a própria guerra: dividir para reinar.

 

Daí se iniciou o desmembramento, de início com a secessão da Eslovénia seguida da Croácia, e posteriormente da Bósnia. Daí se geraram as guerras dos Balcãs, onde amíude se falsamente retratou o povo Sérvio como assassinos bárbaros e os demais como pobres oprimidos, ignorando-se conveniente e deliberadamente que os primeiros confrontos servo-croatas se iniciam com o genocídio e deportação dos sérvios residentes na Croácia, o mesmo tendo posteriormente ocorrido com os sérvios-bósnios.

 

Em rigor, podemos no que toca a estes conflitos e secessões, falar em povos que "quiseram" (quereriam mesmo?) a sua independência. Porque quaisquer deles, croatas, eslovenos ou bósnios, eram efectivamente povos prévios à criação da Jugoslávia. O mesmo se aplica à recente independência do Montenegro. Na verdade, a questão quanto aos bósnios é mais discutível, uma vez que o seu território foi historicamente povoado e disputado ora por sérvios ora por croatas, sendo deste modo os bósnios uma mistura dos dois outros, que na Jugoslávia viria a ser definido como um povo em função da religião, muçulmana (aliás, quanto a mim, erro crasso da governação federal jugoslava, mas isso é outra discussão).

 

Ora, quanto ao Kosovo, o mesmo se podendo dizer da Vojvodina, este pressuposto, quanto a mim essencial se pretendemos falar em autodeterminação, não se verifica. Aliás, o facto de na Jugoslávia, os outros serem Repúblicas e estes Províncias, já será um pouco esclarecedor.

 

Kosovo e Vojvodina são dois territórios de há muito sérvios que, na Segunda Guerra Mundial, foram entregues pela Alemanha Nazi, respectivamente, aos regimes fascistas colaboracionistas da Albânia e Hungria. No decorrer da Segunda Guerra, sendo a Sérvia a única região balcânica que não se ajoelhou e adoptou o fafascismo colaborador, foi pelo Eixo castigada, sendo partes do seu território entregues à Croácia, Albânia, Hungria, Macedónia e Bulgária.

 

Ora, é precisamente neste contexto, que duas regiões sérvias passam para controle de outras nações, que nos anos que durou o conflito mundial, erradicaram a população sérvia existente, substituindo-a por albaneses no Kosovo e húngaros na Vojvodina. Com o fim da Segunda Guerra e a vitória, nos Balcãs, dos partisans de Tito, a Jugoslávia reformou-se, passando a integrar novamente estas duas províncias, como autónomas na Jugoslávia mas pertencentes à Sérvia.

 

Deste modo, o que daqui se conclui é que Kosovo e Vojvodina são inequivocamente território sérvio, e que não existe, nem existiu, qualquer povo kosovar, antes albanês. Que obviamente, na minha opinião, tem todo o direito em lá residir, mas não tem de modo algum o direito a exigir a independência de um território para o qual imigrou.

 

A força que muitos fazem pela independência do Kosovo inscreve-se na acção imperialista da Europa e Estados Unidos, após o desmembramento. Efectivamente, após o ajoelhar da Croácia e Eslovénia, com a Bósnia ocupada por "forças de paz", a Sérvia viria a manter-se resistente aos ímpetos imperiais. Tornou-se, portanto, necessário encontrar novos meios de continuar a dividir a região. A solução encontrada foi, como se sabe, a farsa da limpeza étnica no Kosovo que, tal como no passado, teve como início do conflito o ataque à população sérvia, servindo a seguinte retaliação do exército como motivo para o ataque da NATO, que viria a ocupar a região para preparar a secessão de mais uma fatia de território.

 

Como é óbvio, penso que se percebe que a minha posição contrária à independência do Kosovo nada tem a ver, quer com saudosismos da Jugoslávia, quer com a posição russa de não abrir precedentes, uma vez que, quanto à autodeterminação dos povos, todo o precedente é pouco.

 

E esta é uma posição que contrasta claramente com a hipocrisia de quem hoje defende o direito à autodeterminação dos supostos kosovares, quando em simultâneo contribui directa ou indirectamente para a opressão de povos reais que aspiram à sua independência.

 

Penso que ficam claros os meus motivos: pela autodeterminação dos povos, sempre. Mas dos povos de facto, não de farsas criadas pelo imperialismo europeu e norte-americano para justificar assaltos à soberania de nações, com o fito de as desmembrar e mais facilmente pilhar. Autodeterminação dos povos, sem dúvida, mas no kosovo não há kosovares, apenas sérvios e albaneses, com os seus respectivos países.




Essencialmente, para o que me for apetecendo. Ideias sobre a sociedade, coisas da sociologia, análise de questões políticas... Comentários à actualidade, assuntos pessoais relativizados e quando me apetecer, também dá para chatear alguém.
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Sociólogo, 28 anos, residente em Coimbra. Bolseiro de investigação na área do insucesso e abandono escolares no Ensino Superior. Mestrando em "Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo".
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