Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007
A afectividade e o lado animal do ser humano: que relação?

 

Respondendo ao desafio colocado em forma de comentário no anterior artigo, desafio esse que sugeria equacionar a biologia como factor influente nas relações afectivas, devo dizer que... Discordo totalmente, embora com dúvidas. Portanto aceitam-se pedidos de esclarecimento e esclarecimentos... Enquanto sociólogo, fujo geralmente ao social-biologismo, que tanto já perverteu a sociologia no passado.

Parece-me que, quando falamos em relações afectivas, se sai totalmente do campo da biologia. Ainda assim, é obvio que pouca sei dessa área, portanto teria sido bom se tivesse sido deixada a opinião mais aprofundada, e não somente o desafio.

Se olhar os seres humanos como animais, tal como foi sugerido, vejo somente o instinto de sobrevivência: por um lado a auto-conservação, por outro a reprodução.

E nas relações afectivas não vejo nada disso. Porventura poderíamos equacionar estritamente a sexualidade como a manisfestação do instinto reprodutivo, mas mesmo disso duvido: hoje parece-me que a sexualidade tem inequivocamente um lado biológico, mas sem duvida igualmente uma determinação/condicionamento social.

Se víssemos na sexualidade somente o imperativo biológico, então a nossa escolha de parceiro sexual teria de ser aquele que biologicamente seria o mais apto parceiro para a reprodução (naturalmente, suponho que tal escolha será sobretudo inconsciente). Veríamos portanto a sexualidade humana como a manifestação consciente de um impulso inconsciente; mas se o impulso leva um animal a escolher o parceiro fisicamente mais adequado para a reprodução, na sexualidade humana tal não se dá.

Na sexualidade humana a escolha é primariamente social. Escolhemos para (potencial) parceiro não com base em critérios biológicos, embora a atração sexual seja obviamente fisica (parece-me perceptível a diferença), mas sim sociais. Penso que quando avaliamos a alguém do sexo oposto, não nos limitamos a observar o lado físico, mas igualmente o social. Além do físico ser dissimulável, observamos como a pessoa manifesta a sua identidade no espaço social: ou seja, como se veste, como fala, como se relaciona com outros, se parece alegre ou extrovertida, se parece inteligente, etc.

Assim, embora seja forçoso que nos agrade fisicamente, escolhemos igualmente com base em critérios de ordem social, basicamente escolhemos alguém que nos agrade fisicamente mas também com quem vislumbremos alguma identificação social (que não deve ser entendido como "alguém igual a nós", até pode ser por oposição). A própria atracção física é socialmente condicionada, porque o alvo dessa atracção é culturalmente filtrado: em diferentes culturas o ideal de beleza e sexualidade pode divergir muito.

Portanto, até na sexualidade, que admito advir do imperativo biológico da reprodução, a escolha de parceiro já não obedece exclusivamente ao critério biológico da aptidão para a perpetuação dos genes e sua melhoria por meio do cruzamento com um bom parceiro, mas a uma selecção social.
E não temos consciência do que é um bom parceiro, embora instintivamente possamos ter alguma noção, com as feromonas e outras coisas que me escapam ao conhecimento. Se a minha escolha de parceira sexual obedece-se ao imperativo biológico, não poderia sentir-me atraído por uma mulher que bebesse muito, ou fumasse muito, ou tivesse qualquer tipo de problema físico... porque o detectaria pelo cheiro...

Mas a questão que venho discutindo vai muito além da sexualidade, até à afectividade. E aí a porca torce o rabo, porque não me parece haver qualquer influência biológica, embora a sexualidade antes analisada também desempenhe um papel na afectividade...

Mas a afectividade vai muito para além da sexualidade, como de resto é patente nos artigos anteriores. Sentir afecto é ver em alguém aquilo que nos completa, e uma vez que somos individuos socializados, o que sentimos que nos falta será sempre de cariz psicossocial. Portanto, se gosto de alguém, é porque me identifico socialmente e psicologicamente com essa pessoa, e isto nada tem de biológico. É sim o vislumbre de uma existência psicossocial mais completa, de conseguir o que sinto faltar, de dar o que sinto faltar ao outro: poderíamos dizer que se trata de sobrevivência, portanto instinto biológico, mas esta forma de sobrevivência nada tem a ver com a subsistência animal, portanto tal não se adequa.

De resto, se os animais se unem para a sobrevivência, a afectividade nos seres humanos pode até ir em sentido oposto. Não sabemos todos que as nossas afectividades tantas vezes nos fazem mais mal que bem?... (ainda assim, porque um jantar me deu uma intoxicação alimentar, não vou deixar de comer não é...)

E as próprias formas de união afectiva demonstram o seu carácter social. Assim, enquanto que em qualquer espécie animal (corrijam-me se estiver errado) a uma forma primária e dominante de união, primeiro esta é de carácter de sobrevivência biológica enquanto que a união humana é de carácter social ainda que remeta para uma certa forma de sobrevivência, segundo a união humana pode assumir diversas formas.

E essas formas variam precisamente ao longo do tempo e espaço social, de sociedade para sociedade, de cultura para cultura. Se nas sociedades ocidentais predomina a monogamia e a noção de fidelidade ao companheiro, outras há em que predomina a poligamia. E em outros tempos, igualmente sociedades houve em que a regra era a poliandria. É também interessante notar que a fidelidade surge associada às sociedades polígamas e depois monógamas patriarcais, não existindo anteriormente nas sociedades poliandricas matriarcais.

Conclui-se, portanto, que a forma como homens e mulheres se unem varia com os traços culturais de cada sociedade, portanto é uma união socialmente determinada. Por outro lado, mesmo nas espécies animais, como os lobos, em que dois elementos se unem para toda a vida, tal deve-se à necessidade de sobrevivência biológica: se observar-mos diferentes alcateias ainda assim a união será em moldes iguais ou semelhantes.

De tudo isto espero poder-se concluir que as relações afectivas entre as pessoas duma sociedade são inequivocamente de carácter psicossocial, e que os factores biológicos em muito pouco influenciam. Quando muito, como visto, na sexualidade: mas ainda assim apenas no impulso sexual, e já não no objecto de atracção, que já é socialmente filtrado. Tudo o mais que tem a ver com afecto é de ordem social, porque o amor não é uma forma de nos completarmos biologicamente através de outro ser, mas sim uma forma de completarmos a nossa identidade por meio da troca de sentimentos com outro ser social.

foto: http://static.flickr.com/5/10193854_ae8087589f.jpg



Essencialmente, para o que me for apetecendo. Ideias sobre a sociedade, coisas da sociologia, análise de questões políticas... Comentários à actualidade, assuntos pessoais relativizados e quando me apetecer, também dá para chatear alguém.
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Sociólogo, 28 anos, residente em Coimbra. Bolseiro de investigação na área do insucesso e abandono escolares no Ensino Superior. Mestrando em "Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo".
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