Terça-feira, 28 de Novembro de 2006
Sobre a construção social das relações amorosas

O que é isto de construção social do amor?!? Pensarão talvez alguns que este rapaz não regula bem... Então não saberá que o amor é uma dádiva, ignorará que a cada pessoa outra lhe corresponde, que o amor para uma vida toda é um facto indesmentível, que infindáveis exemplos demonstram existir "a pessoa da minha [nossa] vida"?!? Será frustrado, pseudo, ou simplesmente pírulas?!?

Frustrado, nem por isso, pseudo acho que não, pírulas...bom, depende dos parâmetros sociais a partir dos quais me julguem: num sistema social em que a normalidade corresponde geralmente a acefalia, tenho muito gosto em ser un petit peu anormal.

A quem acredita no descrito no primeiro paragráfo, bom, diria que são os normais do segundo parágrafo. Se a vossa ingenuidade vos faz feliz, ainda bem, já o Cristo disse "abençoados sejam os pobres de espírito, pois deles será o Reino dos Céus" (que também só existe, nem sequer para os normais, mas para os super-normais mesmo).

Escrevo para os anormais que quiserem questionar alguns dados adquiridos e pensar um bocadito, e deixo algumas ideias que, espero, ajudem a reflectir sobre este belo tema a que ninguem é indiferente, l' amour. A quem achar isto suficientemente interessante ou desinteressante e quiser deixar uma notinha sobre o tema, está mais que convidado para o fazer.

Começo por desde já dizer que encaro as relações amorosas como qualquer outra relação, por exemplo de amizade. São socialmente construídas, enquadradas em contextos sociais e históricos, que em dada situação temporal e espacial permitem que uma situação de afinidade, resultante do background indidual de duas pessoas, geram uma relação social mais profunda, seja de amizade ou de amor. Ou seja, duas pessoas portadoras de percursos de vida que de algum modo as tornam potencialmente próximas (mas nem têm de ser iguais, nêm diferentes) podem, em dado contexto, aproximar-se o suficiente para, por exemplo, gerarem uma relação de amizade.

Mas depende sempre do contexto. Duas pessoas potencialmente próximas podem nunca se encontrar devido ao contexto espacial. Ou podem ter redes sociais totalmente distintas, e embora se conheçam nunca se chegam a aproximar. Mas pensemos agora em dois excelentes amigos: dura necessariamente para sempre? Parece-me óbvio que não.
Supondo primeiramente dois bons amigos que deixem de se encontrar, por exemplo porque um muda de cidade: a simples alteração do contexto espacial não dilui necessariamente a amizade, podendo até reforça-la, mas pode igualmente acarretar a prazo uma mudança nos seus contextos sociais individuais que dilua, e a prazo torne inviável, a sua prévia relação social.
Ou dois amigos, em que cometa actos que trespassem o contexto em que a sua relação assenta, distorcendo o dito contexto a ponto de deixar de existir uma base comum em que se edifique a amizade.
Se não há, necessariamente, amizades de uma vida toda, então devem necessariamente ser socialmente construídas: basicamente, surgem de um contexto, e os contextos necessariamente alteram-se ao longo da vida; ou a relação se adapta aos novos contextos emergentes, ou inevitavelmente termina (rapida ou lentamente), ainda que pouco antes tal pudesse parecer impensável. É este o ponto fulcral: o contexto, a sua alteração, e adaptação dos indivíduos/relação ao novo contexto.

Ora, trata-se agora somente de tranportar esta análise para as relações amorosas. Aos que acreditem no amor como algo "etéreo", espiritual, ou algo do género, provavelmente nunca conseguirão perceber a minha forma de ver a coisa, a não ser que consigam despir-se dos parâmetros sociais que há muito têm inculcados.
Porque é que duas pessoas aparentemente "feitas uma para outra", um dia terminam a sua relação? Eram feitas uma para a outra, tinham projectos em comum, edificavam a sua vida em conjunto, porque termina? Porque afinal não eram as respectivas almas-gémeas? Nada disso. Apenas porque o contexto em que se edificou a sua relação amorosa de algum modo se alterou, não se tendo alterado a relação de forma correspondente. A pessoa da nossa vida não é uma especificamente, divinamente determinada, mas somente aquela com quem passamos a nossa vida, porque a nossa relação se consegue adaptar continuamente aos novos contextos em que se desenvolve.

Se perguntar-mos a pessoas que há muito estejam juntas, não acredito que tenha sido o chamado amor à primeira vista. Ora se não foi, então não eram necessariamente feitas uma para a outra: gerou-se sim um contexto que tornou possível o início da sua relação, tendo esta depois sido capaz de se adaptar a novos contextos.
Por outro lado, se um casal de bons amigos um dia começa uma relação amorosa, não é isto demontração do papel fulcral do contexto? Se fossem feitas uma para a outra, não teriam sido amigos pois a relação amorosa teria desde logo nascido. No entanto, o que se dá é uma alteração nos contextos individuais de cada um e no contexto colectivo dos dois amigos, que os aproxima o suficiente para despoletar o início de uma relação amorosa.
Doravante, a relação daí nascida pode ou não adaptar-se aos novos contextos que sem dúvida irão surgindo, mantendo-se indefinidamente ou findando. Por exemplo, a já referida alteração no contexto espacial, com a mudança de cidade de um dos membros do par amoroso, pode reforçar ou terminar a relação, ainda que previamente tal parecesse impossível. Ou se se altera o contexto profissional, e daí temporal, levando a que tenham horários totalmente diferentes, o pouco tempo que passam juntos pode terminar ou reforçar a relação.

Porventura alguns perguntarão agora: algo tem de ser diferente, pois se a relação amorosa fosse simplesmente uma relação social equiparável a uma relação de amizade, então não haveria amor. Pois, e não há mesmo.

O que há é uma predisposição socialmente construída, uma norma apreendida junto com tantas outras no processo de socialização de cada indivíduo. Deixados a nós próprios, construiríamos as relações sociais de cooperação necessárias à nossa existência, sem qualquer ideia de amor, e alegremente copularíamos para assegurar a reprodução da espécie, são esses os nossos imperativos. Além disto, tudo é construído pela sociedade. Doutra forma, não teriam existido outras formas de organização das relações sociais, não teriam existido as primeiras comunidades de cooperativismo absoluto, não teriam existido os rituais de celebração da fertilidade, etc.

Tal demonstra que a ideia que temos de amor e das correspondentes relações, não existe desde sempre, sendo portanto construída. Porquê? Porque é mais facil o controlo de pares separados do que de comunidades, motivo pelo qual, com grande papel da igreja (sim, uma vez mais a igreja), foi sendo construída uma doutrina assente na lógica do amor, ao longo dos séculos inculcada culturalmente e tornada inquestionável (ou não, é como a utopia). Por um lado, quem tem o "amor da sua vida" tolera mais facilmente os defeitos da sociedade, contestando menos; por outro quem não o tem, procura-o ou afunda-se, igualmente contestando menos. Uma vez mais, se convivessemos intensamente e tudo partilhássemos, estariamos sempre alerta para os males do sistema, e mais facilmente resistiriamos; por outro lado, fechados em pares, fecha-se a nossa percepção social.

É esta a função social do amor nas sociedades. Controlo. Poder. Reprodução social. É-nos culturalmente inculcado, amamos porque a isso fomos ensinados, ficamos felizes quando amamos por é o que é suposto, desesperamos quando não o temos porque haverá por aí alguém que é feito para nós, mas quem é, mas onde anda...desespero, inércia, apatia social, que é o que é preciso.

Por outro lado, e depois de tanto dar na ferradura, há ainda assim um cravo onde bater. Como quase tudo no sistema, também o amor pode ser usado contra o sistema social vigente. Não, não sou anarquista, o Estado oprime mas pode ser usado contra o sistema, e de igual forma também a opressiva noção do amor pode ser usada. Porquê? Porquê, se tanto mal disse deste malfadado conceito? Porque o afastamento também nada resolve. Tal como o afastamento inerte do punk (se é que isso ainda existe realmente, outra discussão talvez) não muda nada, a recusa do amor também não. Não amam os comunistas? E não são fortalecidos no seu amor? Não é por termos a noção de que algo é socialmente construído, que não o podemos aproveitar; o que não podemos é ser estupidificados por conceitos construídos e socialmente inculcados. Mesmo porque tal como o Estado, ou o sistema capitalista em geral, persistir por muito que alguns se queiram manter à margem do processo social, também o amor enquanto relação social se mantém ainda que alguns porventura o pudessem recusar.

foto:http://thecrobard.propagande.org/pages/galery/couple.html


Publicado por Alfredo às 18:11
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5 comentários:
De Sérgio a 3 de Setembro de 2010 às 01:20
Considerei o blog uma fonte de boa reflexão.
Após a leitura, o comentário de Isabeau trouxe luz maior a nossa crítica. E posteriormente vi você Alfredo afirmar as reticências de seu texto, grande coisa você fez e isso denota maturidade intelectual e não a pseudo-intelectualidade que se considera acabada.

Abraços do Brasil.


De isabel victor a 31 de Dezembro de 2008 às 02:52
Divirto-me anormalmente com o lúdico e estimulante exercício de pensar. Aliás, já tentei, mas não consigo deixar de pensar ... vício ou mania ?


________ voltando ao assunto: inscrevemos todos os actos da nossa vida numa rede de significações e representações. No processo de construção de sentidos, buscamos identificações ... mas esse processo nem sempre é consciente. Há que afirme que a paixão é uma decisão e não um sentimento. Bem, até pode ser ... mas existem razões que a razão desconhece. Não está tudo pré-determinado (também partilho da opinião de que o destino não existe) mas no processo de construção há muitas coisas que falham ao controle da nossa vontade. Tudo o que somos ... é construído em relação com o outro. Essa alteridade (por vezes desconhecida ) é a chave. Descobrimo-nos, descobrindo ... esse é o encanto. O imponderável da paixão. A insustentável leveza ...



Mas sim, Alfredo, concordo consigo ... tudo é construção. Por vezes, o projecto de uma vida ...


Apreciei o desafio

Criei um elo no meu " Caderno de campo "



De kely oliveira a 9 de Novembro de 2008 às 15:49
Adorei ........estava fazendo um trabalho p/ faculdade e encontrei seu artigo que muito me chamou atenção.
Parabéns!!!


De Isabeau a 28 de Novembro de 2006 às 18:20
Gostava de começar por me apresentar como um desses anormais que gostam de pensar e quentionar as verdades vulgarmente consideradas absolutas. Posto isto, já estará o potencial leitor informado do que pode esperar deste comment. No entanto não deverá pensar que estou plenamente de acordo com o que foi escrito antes. Afinal, nesse caso, dira simplesmente: "Finalmente uma visão correcta do amor" ou "Concordo em absoluto" ou mesmo "Assim mesmo amigo, essa é a realidade, a verdade ainda que não consigas lidar com ela" :)
Acho que a análise feita sobre os contextos espacial, temporal e social está perfeitamente correcta e lógica. Seria mesmo capaz de dizer que o conceito de alma gémea está delimitado, condicionado por por estes contextos e que só existe para uma determinada relação quando estes contextos lhe são favoráveis. Acho igualmente que a transposição de condições da amizade para a relação amorosa não só é possível como é a realidade, assim como todas as outras relações socias, também estas estão sujeitas aos ditos contextos.
Com o que não posso concordar é com a visão da função do amor assim como com o motivo pelo qual se diz que terá surgido.
Nas diversas espécies a monogamia (condição à qual chamamos amor para a espécie humana) terá surgido como forma de assegurar a reprodução em populações densidades populacionais que tornavam improvável o encontro entre pares. Desta forma a monogamia surge como mecanismo de satisfação da necessidade básica que é a propagação dos próprios genes por reprodução sexuada. É considerado assim na actualidade para espécies nestas condições. No entanto se observarmos com mais atenção vemos que espécies com densidades populacionais consideráveis mantêm a monogamia como sistema de organização social (a espécie humana é um bom exemplo, sobretudo se considerarmos grandes centros urbanos). Mas não tenhamos ilusões idílicas sobre o amor animal! Nestas espécies como na humana existem quebras de casal, traições, fugas viuvezes que se superam no encontro com outro par; e a selecção do melhor conjunto de genes, ainda que inconsciente, é uma realidade bem patente!
Com esta possibilidade de motivo para o surgimento da monogamia trona-se difícil para mim considerar que o amor tenha simplesmente sido criado como forma de controlo da sociedade. Posso acreditar, sim, que haja um esforço para o manter como uma peça central do mecanismo da vida com esse objectivo, mas creio que não pode ser mais que um simples aproveitamento de uma situação pré existente que resultava favorável.
Além disto (pode ser biologice minha :) )acho que há sempre em nós algumas coisas perfeitamente inatas, pré determinadas, seja geneticamente seja por qualquer outro mecanismo. Como creio que a reprodução é uma necessidade básica, fisiológica, biológica cabe nesta categoria de faculdades e acções ou sentimentos inatos. Acho que as outras formas de organização em que cabem a poligamia e aos rituais de celebração da fertilidade entre outros representam evoluções da forma de ver a reprodução e a sexualidade numa população que não necessita da monogamia para sobreviver.
Mais ainda, não me parece que este mecanismo de controlo da sociedade pelo amor seja tão eficaz quanto se deixa transparecer no texto, ou seja, não é por amar e estar feliz no campo sentimental que vou deixar de ter atenção aos outros campos e que vou deixar de contestar; e também não é por não amar ou não ser amada que me vou consumir com essa situação a ponto de me alienar de tudo o resto. Sendo isto verdade para mim atrevo-me a dizer que acho que é verdade para a maioria da população humana.
Mudando um bocadinho o rumo do que escrevo (agora já pode ser um pouco de sentimentalismo meu) acho que embora haja contextos que possamos controlar, controlando assim a possibilidade de determinados sentimentos surgirem, não me parece que sejamos capazes de controlar a natureza do sentimento que surge em determinado contexto, parece-me que os sentimentos são algo mais ou menos inato, no qual não é necessário pensar para que surja, algo natural ainda que delimitado e condicionado como toda a natureza. E como tudo pode dar bom resultado e pode dar mau resultado, depende d como é explorado e d quano dependemos dele em cada momento. Enfim não lhe pinto tão má cara nem lhe atribuo tanta frieza, afinal as possibilidades que o amor oferece na dedicação e entrega a um objectivo são inegáveis e o seu valor inestimável! Eu diria mesmo que é imprescindível à luta, à contestação a cumprimento de objectivos e é sem dúvida, elemento essencial e central da Revolução.
Mudando de assunto, gostei de ter que pensar nisto :) Obrigada amigo! Por algum motivo gosto tanto de conversar contigo!

Beijinhos
Ana Martins
05 de novembro 21:32

(landofutopia.spaces.live.com a 05/11/06)


De Alfredo a 24 de Janeiro de 2007 às 12:24
Bom, retiro alguns dos aspectos que coloquei. Basicamente, mantenho tudo o que referi no que respeita à conceptualização das relações amorosas enquanto relações sociais. Por outro lado, retiro o que disse sobre a função do amor nas sociedades.

Maus tempos quando escrevi isto inicialmente... Ainda tenho de pensar mais nisto...


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