Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007
Quando nos enamoramos?

Bom, nesta grande odisseia que é a construção de uma teoria sociológica do amor, ou se preferirem das relações amorosas, deixo aqui mais um artigo para reflexão. Aproveito para lembrar que este é já o segundo texto nesta saga, e que quem o desejar pode consultar o primeiro (relativo à conceptualização do amor enquanto relação social) nos arquivos de Novembro.

Aproveito para dizer que, como qualquer ideia, o valor das opiniões que se seguem será naturalmente enriquecido se fôr alvo de discussão, portanto agradeço quaisquer opiniões que desejem aqui deixar.

Para começar, e ao contrário do texto anterior, o que se segue não é da minha autoria mas sim do sociólogo italiano Francesco Alberoni. Este é um dos poucos autores que se tem dedicado a contrariar as habituais convenções, assim questionando esse fenómeno que a ninguém deixa indiferente, o amor. Tem-no feito do ponto de vista sociológico, e como procuro fazer o mesmo parece-me lógico que leia o que outros escrevem sobre o assunto: são portanto as suas considerações que deixo para vossa apreciação, complementadas com algumas notas minhas.

"Quando nos enamoramos?" é o título do segundo sub-capítulo do segundo capítulo da obra "Amo-te" de Alberoni. Antes de passar às transcrições, importa desde já lembrar que para o autor o enamoramento não é o mesmo que a paixão, pelo que estar apaixonado não corresponderá exactamente a estar enamorado. No entanto a distinção não é muito clara, mas por agora bastará que consideremos o enamoramento como algo mais que a paixão e algo menos que o amor.

Portanto, quando nos enamoramos?

"Enamoramo-nos quando estamos prontos para mudar, quando estamos prontos a deixar uma uma experiência já feita e gasta, e temos o impulso vital para realizar uma nova exploração, para mudar de vida."

"Quando estamos prontos a tirar proveito de capacidades que não tínhamos explorado, a explorar mundos que não tinhamos explorado, a realizar sonhos e desejos a que tínhamos renunciado. Enamoramo-nos quando estamos profundamente insatisfeitos com o presente e temos a energia interior para iniciar outra etapa da nossa existência."


"... o enamoramento acontece apenas quando se acumulou tanta recusa do passado e tanto desejo de vida, tanto impulso vital que torna possível um novo salto em frente, um novo renascimento, com todos os riscos que este comporta."

"Para que se esteja enamorado é preciso sentir um mal-estar com o presente, o lento acumular-se duma tensão, muita energia vital e, por fim, um factor desencadeante, um estímulo adequado."

"Em termos sociológicos dá-se a crise entre o sujeito e a sua comunidade, e depois algo que empurra o sujeito para um novo tipo de vida, até atingir um limiar, um ponto de ruptura, onde se lança na novidade. O verdadeiro enamoramento é precedido por uma crise das relações existentes, pela impressão de ter errado, por uma impressão de irrealidade, de falta de autenticidade. E, ao mesmo tempo, pela grande saudade duma vida mais verdadeira, mais intensa, mais real."

"De tudo o que dissemos conclui-se um corolário fundamental: quando uma pessoa muda [ou sente necessidade de mudar], se transforma [ou disso sente necessidade], tem experiências profundamente novas [ou deseja tê-las], acaba por se encontrar na condição de se poder enamorar outra vez."

Bom, das transcrições aqui apresentadas, e por comparação com o meu primeiro ensaio sobre o tema, alguns aspectos parecem-me relevantes:

  • Primeiro, Alberoni descreve na positiva o que eu antes descrevi na negativa; o autor foca o que leva alguém a enamorar-se e que condições o propiciam, enquanto que eu foquei o que leva o enamoramento a desvanecer-se, o amor a findar; fruto das circunstâncias, parece-me, talvez hoje eu escrevesse um primeiro ensaio diferente...
  • Em segundo lugar, parece-me que apesar das diferenças de estilo a substância é essencialmente a mesma. Isto porque quando o autor salienta repetidamente o factor mudança, parece-me estar a referir precisamente o que eu antes descrevi como o contexto e a sua alteração.
  • Assim, Alberoni entende que o indivíduo se pode enamorar quando está em mudança ou dela sente necessidade, portanto quando o contexto em que se insere está a mudar ou o indivíduo o pretende. Por outro lado, eu referi que o enamoramento termina quando o contexto se altera e o par amoroso não se consegue adaptar ao novo contexto. Portanto, parece-me que falamos do mesmo, com a diferença que o autor descreve a importância do contexto para o enamoramento de um indivíduo, enquanto que eu abordei a importância do contexto para o desenamoramento de dois indivíduos.
Finalmente, parece-me que Alberoni, muito embora pretenda desenvolver uma análise sociológica deste tema, insere-lhe ainda assim um lado psicológico que eu não abordei. Isto porque embora refira "a crise entre o sujeito e a sua comunidade" e "crise das relações existentes", igualmente foca com relevância que "estamos profundamente insatisfeitos com o presente", "quando se acumulou tanta recusa do passado e tanto desejo de vida", "impressão de irrealidade, de falta de autenticidade", sendo estes ultimos aspectos eminentemente do foro psicológico.

Portanto, onde eu me restringi à análise do contexto puramente social, Alberoni embora igualmente o aborde, analisa também o papel das transformações no contexto psicológico do indivíduo. Bom, parece-me que na ansiedade de abordar sociologicamente este tema, procurando retirá-lo da exclusividade da psicologia, tenha negligenciado que esta área do saber tem ainda assim um papel relevante nesta temática. Porventura a chave da questão estará na adequada combinação da análise dos factores sociais e psicológicos, já que estes provavelmente se influenciam mutuamente.

Talvez a questão não seja então a busca de uma teoria sociológica das relações amorosas, mas de uma teoria psicossociológica... Que vos parece?

foto:
www.diegomanuel.com.ar/amor/amor1/webs/love-2.htm




Publicado por Alfredo às 17:33
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1 comentário:
De Tânia a 9 de Fevereiro de 2007 às 17:20
Porventura, a chave da questão estará em primeiro, analisar os seres humanos como animais que são; a dinamica populacional analisada sob o prisma da ecologia difere em alguns pontos da sociologia...
Será um óptimo próximo exercicio para ti jovem!!


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Essencialmente, para o que me for apetecendo. Ideias sobre a sociedade, coisas da sociologia, análise de questões políticas... Comentários à actualidade, assuntos pessoais relativizados e quando me apetecer, também dá para chatear alguém.
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Sociólogo, 28 anos, residente em Coimbra. Bolseiro de investigação na área do insucesso e abandono escolares no Ensino Superior. Mestrando em "Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo".
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