Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006
Normas sociais, alienação e mudança


Há uns tempos uma amiga tinha como seu nome no messenger a seguinte frase, ou algo parecido: "Todos nascemos diferentes, e tornamos-nos iguais ao longo da vida". Tenho andado a pensar nisto, e decidi-me por deixar aqui algumas ideias, para quem quiser pensar um pouco, nomeadamente sobre si próprio e sobre a sua vida... Como dito noutro post, escrevo para anormais, porque os normais não questionam nada.


Que a sociedade tem regras, imagino que não seja novidade para ninguém. Estas regras manifestam-se formalmente nas diversas leis, que afinal mais não são que normas e valores sociais postos no papel, ou por outras palavras, a formalização escrita das regras sociais necessárias à coesão o funcionamento ordeiro da sociedade. Além disso, existem igualmente regras não formais, valores e normas que não chegam ao papel, mas que cumprem propósitos semelhantes.

Até aqui, tudo muito simples. A questão relevante, no entanto, respeita a todo o conjunto de regras (regras em termos de valores e normas, para simplificar) que não são de facto indispensáveis ao simples funcionamento da sociedade, em sentido lato, mas que ainda assim existem. Mas se assim é, então existem para quê?

Existem para homogeneizar os indivíduos, alienando-os, para reforçar a aceitação do sistema social vigente. Ou seja, existem não somente para manter o funcionamento da sociedade, mas impedir que se transforme noutras formas de funcionamento ou, para ser mais específico, noutra forma de sistema social.

E porque é que o sistema necessita de homogeneizar e alienar os indivíduos? Porque quanto mais "iguais" uns aos outros forem, quanto mais semelhantes forem sonhos, objectivos, interesses, modos de vida, etc, menos o indivíduo se questionará sobre formas alternativas. Fala-se anteriormente dos indivíduos em si mesmos, mas no plano colectivo é que se encontra o cerne da importância da alienante homogeneização: quanto menos os indivíduos se questionarem a si próprios, menos questionarão o que os rodeia, portanto em ultima análise menos questionarão o sistema social vigente.

Portanto, o sistema precisa, para (sobre)viver, de nos tornar a todos muito "iguaizinhos" uns aos outros. Ou seja, precisa que o maior número possível de indivíduos aceite uma mesma forma de vida que, para que nada questionem, interessa que seja fútil, vazia de sentido, estupidificada ou, para usar um conceito mais exacto, alienada.

Daqui advêm regras sociais informais, mais ou menos explícitas, que têm por objectivo a nossa alienante estupidificação. E é por isto que, nascendo todos diferentes, acabamos por lentamente nos tornar todos iguais (ou não, é como a utopia...), porque o sistema de tal necessita para se manter.

Todos já tivemos sonhos, objectivos ou simplesmente interesses (para mim a distinção prende-se com o prazo a que podem ser alcançados) dos quais desistimos. Já desejámos modos de vida dos quais abdicámos. Uns teriam gostado disto, outros daquilo, etc. E desistimos. Porquê? Porque não eram comuns, porque eram diferentes do que nos é ensinado a sonhar e ter como objectivo, porque eram diferentes do que nos enfiam na cabeça que deve ser o nosso modo de vida, porque eram interesses que os normais não têm. Falamos de regras, portanto. Regras que definem o que é normal e o que não é.

O que é normal é tirar um curso ou arranjar um trabalho. O que é normal é encontrar a pessoa da nossa vida. O que é normal é casar com ela (de preferência pela igreja). O que é normal é ter filhinhos. O que é normal é trabalhar a vida toda. O que é normal é educar os nossos putos a serem iguais a todos os outros. O que é normal é deixar-lhes alguma coisinha quando morrermos... É isto que é normal, o cerne da nossa individualidade, se disto difere é anormal, e deve portanto ser corrigido. E as regras existem para impingir esta insípida normalidade.

De quanto já desistiu cada um de nós, da nossa identidade individual, do que fazia de cada um um ser único, para se encaixar nesta sociedade idiota? Um gostaria de viajar pelo mundo, sobrevivendo de biscates, mas isso não é vida para ninguém... Outra gostava de pintar o corpo feminino nú, mas diziam-lhe que era pornográfico... Ainda outro gostaria de ir para algures onde, ainda que pobre, seria útil a alguma causa, mas isso são delírios da juventude...

E porque é que desistimos? Porque as regras não se limitam a existir, independentemente da nossa aceitação ou não. São-nos impostas coercivamente. Afinal, se o sistema tanto de tal necessita, não poderia simplesmente ficar à espera que as aceitássemos ou não. Assim sendo, impinge-as, pressiona implacavelmente para que as aceitemos.

A maioria, de facto, aceita-as sem minimamente se questionar. Para esses tudo é simples, nunca se perguntam sobre como mil coisas poderiam ser diferentes. Abençoados sejam os pobres de espírito, pois deles será o Reino dos Céus... ou não. De qualquer modo, já devem ter desistido de ler isto, portanto não importa.

Ainda assim, um número razoável desenvolve formas mistas de reagir às coercivas regras sociais. Basicamente, aceitam o conjunto de regras que lhes é menos conflituoso, mantendo alguma da sua especificidade. Aceitam o estudo, aceitam o trabalho, aceitam a família, mas encontram formas de manter parte da sua individualidade: encontram escapatórias, bunkers da individualidade, formas de se manterem fiéis a si próprios, muito embora aceitem boa parte do que lhes é impingido. Por exemplo, criticando e combatendo o próprio sistema que esmaga ou esmagou parte de si próprios, desenvolvendo meios de afirmar a sua especificidade em dadas alturas e contextos, indo contra determinadas regras quando tal não lhes é demasiado conflituoso.

Acho que, na verdade, estes são os que melhor se safam na vida: por um lado absorvem a parte das regras que lhes é mais aceitável, por outro encontram meios de rejeitar as que lhes são mais coercivas, mantendo assim parte da sua individualidade.

Pelo contrário os que pior se safam, são os que resistem tanto quanto podem, pois nada lhes é aceitável... e quando não mais o podem fazer, acabam por criar as suas próprias regras pessoais, para conseguírem suportar as regras da sociedade. São duplamente miseráveis, já que se impõem um duplo conjunto de regras, as do sistema e as suas próprias, as segundas para tornar as primeiras suportáveis.

Até se podem virar inequivocamente contra o sistema, aceitam-no combatendo-o, mas a auto-alienação a que se impuseram, a rígida e racional disciplina que impõem a si próprios para que a vida seja tolerável, jamais lhes trará qualquer felicidade. Porque vivem num limbo, nem aceitam a sociedade nem se aceitam como são. Qual estátuas, friamente vêm a vida passar, sem por nada serem afectados, pois nada fere o que já está morto.


Talvez vivam mortos para sempre... Ou talvez tenham sorte, e algum(ns) acontecimento(s) ocorra(m) que lhes quebre a frieza, que lhes abale a racionalidade, que lhes desmorone a disciplina.

Olharão para trás e verão tudo o que perderam, não porque não lhes foi dado, mas porque se obrigaram a não aceitar. Recordarão o tempo passado com a estupefacção de quem se apercebe de realidades que se obrigara a esquecer. Lembrar-se-ão do que eram, comparando com o que se obrigaram a ser.

O conflito pode ser tal, que não resistem. Já viveram tanto tempo uma não-vida, que o recomeço é uma ideia insuportável, sendo mortos-viventes, entre renascer e morrer de vez, a ultima é mais fácil.

Outros têm a força para recomeçar. Muito tempo poderá passar, enquanto lentamente se redescobrem, aos poucos, um dia de cada vez, construindo de novo a sua identidade. Aprenderão a aceitar-se, mas nunca aceitarão a sociedade que se lhes impõe, já que nela nunca deixarão de ver a origem da sua auto-destruição. Encontrarão o equilíbrio necessário, aceitarão o que tiverem de aceitar, mas à passada frieza advirá a calorosa fome de viver.

Moral da história: a miserável sociedade em que vivemos, por sua vontade ou nos estupidifica ou nos destrói. Cabe a cada um encontrar em si e noutros a força para resistir. Se tudo tentar recusar, ou definhará, ou acabará como este último exemplo: recusar-se-á a si próprio e definhará à mesma. Cada um terá que encontrar o seu ponto de equilíbrio, para viver a sua vida tal como a deseja sem ser alienado nem se auto-alienar de si mesmo. Quem já foi totalmente alienado, não terá lido isto até ao fim; quem já encontrou o equilíbrio, ainda bem que o conseguiu, quem não o encontrou, espero que o venha a conseguir.

foto: http://www.dr-rath-foundation.org.za/


Publicado por Alfredo às 00:53
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3 comentários:
De Morcego Vermelho a 4 de Dezembro de 2006 às 15:57
Pois é meu amigo, há que trabalhar para transformá-la no dia-a-dia.
Agora muito há parte... Teres uma música da Célia Cruz no teu blog...


De Alfredo a 4 de Dezembro de 2006 às 20:19
Quanto à Célia Cruz, não sei quem é e também não me interessa muito...achei piada à música, e é quanto me basta.

Que é preciso trabalhar para transformar a sociedade no dia-a-dia, já eu sei.

Não desvalorizando o comentário, o que gostava mesmo era de opiniões relativamente ao escrito...


De Alfredo a 11 de Dezembro de 2006 às 20:06
OK, já sei quem é a Célia Cruz... Podia ter escolhido algo melhor que uma contra-revolucionária cubana, é verdade.

Quando tiver paciência para arranjar outra coisa, até mudo. Mas também é verdade que gosto da música.....serei revisionista?!?


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Essencialmente, para o que me for apetecendo. Ideias sobre a sociedade, coisas da sociologia, análise de questões políticas... Comentários à actualidade, assuntos pessoais relativizados e quando me apetecer, também dá para chatear alguém.
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Sociólogo, 28 anos, residente em Coimbra. Bolseiro de investigação na área do insucesso e abandono escolares no Ensino Superior. Mestrando em "Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo".
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