Terça-feira, 28 de Novembro de 2006
Notas sobre mudança individual e personalidade

Como se dá a mudança na vida de um indivíduo? Como reage o indivíduo à mudança que vive, voluntariamente ou em virtude de factores externos? Parece-me que tal depende antes de mais da forma de ser/estar de cada um, no entanto o fundamental para começar é: de que mudança estamos mesmo a falar?

Isto porque será diferente a mudança de determinado aspecto da vida de um indivíduo, da mudança de vários aspectos, mas sobretudo da mudança no próprio indivíduo. Por enquanto, tomar-se-á como semelhante a reacção de um indivíduo a uma mudança por si próprio impulsionada, e a reacção a uma mudança que o indivíduo é levado a viver ainda que contra a sua vontade.

Tratando-se da mudança em dado aspecto da vida, por importante ou central que seja, penso que o indivíduo reagirá de acordo com as características fundamentais da sua maneira de ser. Admitindo, claro, que nada é tão linear e que as personalidades aqui explanadas são extremos, sendo portanto que na realidade ambas se encontram na generalidade dos indivíduos, uma e outra com determinado peso.

Desta forma a pessoa espontânea e emotiva, que age impulsivamente, tenderá à mudança rápida, carregada de emoção e imediatismo, rumo ao que no imediato considera ser o melhor para si. Ainda que por vezes seja atravessada por momentos de dúvida acerca das suas escolhas, a sua impulsividade leva-a a descartar as dúvidas e seguir em frente. E como segue em frente, poucas vezes pára para se questionar, as dúvidas são cada vez menos frequentes: a mudança dá-se rapidamente e o indivíduo adapta-se ao novo contexto.

Por outro lado, a pessoa racional e contida, que tudo planeia, tenderá a uma mudança lenta e esquematizada, muito bem pensada para que a mudança decorra exactamente da forma que pretende, rumo ao que pretende. Ao contrário da anterior, devido às permanentes interrogações que faz a si própria, a dúvida não se faz de momentos, sendo antes uma constante de todo o processo de mudança. Dada a necessidade de certezas para agir, e à presença de dúvidas constantes, a mudança é lenta e a reacção do indivíduo muitas vezes penosa, uma vez que as certezas que procura serão muitas vezes inatingíveis. O indivíduo acaba por, mais que ser um agente da sua mudança, ser um observador que somente retoma a acção quando a dúvida se torna insustentável e a mudança total e absoluta uma tarefa inadiável.

Tratou-se até aqui da forma como a personalidade interfere na mudança num dado aspecto da vida de um indivíduo. Importa agora equacionar a forma como o indivíduo pode levar a cabo um processo de mudança na sua própria personalidade, antes que se chegue ao ponto fundamental: como pode um indivíduo inserido num processo de mudança, mudar também a sua personalidade face à mudança que enfrenta?

foto:http://www.hprt-cambridge.org/Layer3.asp?page_id=62


Publicado por Alfredo às 18:10
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1 comentário:
De Ana Pina a 28 de Novembro de 2006 às 18:18
Caro amigo

Percebo o teu ponto de vista, mas permito-me acrescentar um factor à tua análise que, na minha opinião, foi neglegenciado na tua exposição.

Aquando da apresentação das mudanças de vida, referiste os "factores externos".
Gostaria de clarificar este conceito como sendo todos os factores alheios ao livre arbítrio do indivíduo, sejam eles internos ou externos ao mesmo.

Pude reparar que estes factores desaparecem da tua análise acerca das alterações internas que operam no indivíduo nos diferentes processos da mudança, ou se quisermos falar de conceitos psicológicos, do luto.

Concordo contigo quando dizes que a personalidade e, a nível do consciente, as estratégias de tomada de decisão, têm influência na adaptação à mudança.

Mas, na minha opinião, faltam aí os benditos/malditos "factores externos". Esses mesmos que, inesperadamente para o indíviduo e não dando oportunidade aos estilos de decisão para se mostrarem, exigem ao sujeito uma resposta efectiva e que, em determinadas situações, são capazes de alterar todo o curso de acontecimentos previstos pelo indivíduo.

"...E o futuro é uma astronave, que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar
Sem pedir licença, muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela,
De uma aquarela
Que um dia enfim....
Se descolorirá"

Vinicius de Moraes

Aqui fica um pequeno contributo, em jeito de brincadeira, mas muito a sério......

Ana Pina

21 de julho 22:08

(landofutopia.spaces.live.com a 21/06/06)


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