Quarta-feira, 14 de Março de 2007
Um dia, o Mundo vai arder
 
O capitalismo.
O pior assassino de massas da história, mas um assassino sem rosto nem código genético e que opera impunemente há vários séculos e em vários continentes.
Não ouvem o som do gongo, anunciando o termo do jogo e o fim da história?
Ele ganhou,
açambarca para a sua robusta versão mafiosa os despojos dos seus inimigos...

Que adversário credível no horizonte?
Que adversário?

Os mortos e os vivos.
A multidão sem número dos que foram deportados de África para as Américas,
esmigalhados nas trincheiras de guerras imbecis,
assados vivos pelo napalm,
torturados até à morte nos calabouços dos cães de guarda do capitalismo,
fuzilados no Muro dos Federados, fuzilados em Fourmies, fuzilados em Sétif,
massacrados às centenas de milhar na Indonésia,
praticamente erradicados tal como os indíos na América,
assassinados em massa na China colonial para assegurar a livre circulação do ópio...

De todos estes, as mãos dos vivos recebem a chama da revolta do homem negado na sua dignidade.
Mãos em breve inertes dessas crianças do Terceiro Mundo que a má nutrição, diariamente, mata às dezenas de milhar,
mãos descarnadas dos povos condenados a reembolsar os juros duma dívida a que os seus dirigentes-marioneta roubaram o capital,
mãos trémulas dos excluídos cada vez mais numerosos acampando nas margens da opulência...

Mãos de uma trágica fragilidade e de momento desunidas.
Mas elas não podem deixar de se voltar a unir um dia.
E, nesse dia,
A chama que elas transportam incendiará o Mundo.



Publicado por Alfredo às 15:42
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Terça-feira, 13 de Março de 2007
Algumas notas sobre o Estado


Este artigo é motivado por uma notícia que vi há pouco no telejornal da SIC, relativo a conflitos numa empresa da Amadora. Ora o que se passou foi uma carga policial sobre um conjunto de trabalhadores desarmados, cujo "crime" foi defender o seu posto de trabalho, reivindicar os seus salários em atraso e lutar contra o encerramento da sua empresa.

Portanto, as forças policiais do Estado tomaram a decisão de carregar sobre trabalhadores que tentavam impedir a saída de camiões da empresa, com maquinaria no seu interior. A polícia justifica a sua actuação com base na defesa da propriedade privada do dono da empresa, podendo-se portanto concluir que opta por defender quem tem contra quem não tem, quem manda contra quem obedece, quem come fartamente contra quem tem salários em atraso.

Conclui-se então que o Estado, por meio das suas forças de segurança, em nome da defesa da propriedade privada, toma o partido do patrão contra o trabalhador, do capital contra o trabalho, do burguês contra o proletário.
Verifica-se portanto que, na óptica do Estado, a propriedade privada é algo a defender a todo o custo, ainda que tal implique o espancamento de trabalhadores e detenção de sindicalistas, que mais não reivindicam que o que é seu por inalienável direito, o justo pagamento por trabalho já feito, leia-se muitos salários em atraso, portanto menos importantes que a propriedade de um.

De que nos pode servir este acontecimento para reflectirmos sobre o papel do Estado na sociedade? Este exemplo mostra que, quando tem de optar entre defender os interesses do patrão ou os do trabalhador, o Estado (neste caso, a polícia, expressão física da força do Estado) opta por defender o patrão, o proprietário.

Exploremos um pouco mais esta questão.

O que aqui se trata é o tomar de partido, por parte do Estado, de um grupo relativamente ao outro. E que grupos são estes? De um lado temos o conjunto de indivíduos que detém a propriedade dos meios de produção, os patrões; do outro aqueles que têm somente a sua força de trabalho, que assalariam aos primeiros, portanto os trabalhadores. Temos, então, um conflito entre patrões e trabalhadores, defendendo o Estado os primeiros.

Se os principais e essenciais grupos na sociedade são as classes sociais, e se estas se definem pelo papel que desempenham nas relações sociais de produção, temos então que se na sociedade capitalista a produção económica se estrutura em torno da propriedade dos meios de produção, decorre daqui então que as classes sociais se dividem entre quem tem e quem não tem propriedade privada de meios de produção. Dividem-se, portanto, entre patrões e trabalhadores.

O que concluimos é então que o Estado não se situa acima da sociedade, nascendo dela, mas igualmente que não serve propósitos conciliadores dos diferendos e conflitos das classes existentes na sociedade, servindo sim os interesses de uma contra a outra.

O Estado não é de forma alguma um poder situado acima da sociedade e separado desta, mas sim um produto da própria sociedade em determinada fase do seu desenvolvimento. Mais concretamente, o Estado surge a partir do momento em que as contradições das classes sociais já não podem de forma alguma ser conciliadas. Desta forma, a formação do Estado é precisamente a prova de que as contradições de classe são inconciliáveis. E é precisamente por serem inconciliáveis que é necessário um poder, o Estado, que, aparentemente situado acima da sociedade, modere o conflito de classes e estabeleça uma ordem que impeça as classes antagónicas e inconciliáveis de se destruírem e à sociedade.

Nascendo o Estado da existência de classe antagónicas, mas nascendo no seio do conflito dessas classes, é inevitavelmente o Estado da classes mais poderosa, a classe economicamente dominante que assim se torna igualmente politicamente dominante, alcançando novos meios para oprimir e explorar.



E um desses meios é o uso das forças de segurança do Estado na defesa dos interesses do patronato, tal como hoje ocorreu, demonstrando
a relação entre as forças armadas e policiais do Estado e a sociedades de classes antagónicas, inconciliáveis e hostis.
A transição da sociedade gentílica para a sociedade dividida em classes, acompanhada do desenvolvimento do Estado, torna impraticável a organização armada e autónoma da população, o que leva ao aparecimento de uma força pública do Estado, em nada similar à anterior organização da própria população em força armada.
Esta força pública desenvolve-se porque, estando a sociedade dividida em classes inevitavelmente hostis, a sua organização armada e autónoma levaria a que a luta de classes se convertesse em luta armada entre as classes. Assim sendo, o exército e a polícia constituem os principais instrumentos de força do Estado, ao serviço dos interesses da burguesia quando deles necessita.

Além do exemplo visto, tal facto verifica-se igualmente nos processos revolucionários, quando após a destruição do aparelho de Estado a burguesia procura manter ou formar as forças ao seu serviço, para combater a revolução, e o proletariado procura criar uma força similar ao serviço da classe trabalhadora: exemplo disto foi a formação do Exército Vermelho e do Exército Branco nos primeiros tempos da Revolução Russa, o segundo ao serviço dos objectivos da contra-revolução da burguesia e aristocracia, sendo o primeiro a nova organização armada do proletariado, para defesa da sua revolução.

Por outro lado, no que respeita às forças armadas do Estado, surgem da necessidade de dar suporte à competição e rivalidades da burguesia à escala global. As duas guerras mundiais são disso exemplo, ligando-se à passagem do capitalismo para a sua fase superior, o imperialismo: a competição da burguesia à escala internacional, geralmente organizada a nível nacional, quando as sociedades nacionais estão nos limites das possibilidades de exploração e não existindo novos mercados para explorar (colonizar), a burguesia é obrigada a competir pela força à escala internacional. E, tal como no plano nacional se serve das forças de segurança do Estado para garantir os seus propósitos rapinadores, no plano internacional serve-se das forças armadas.

Parece-me claro que o Estado não existe portanto desligado da sociedade e de suas contradições, grupos e conflitos. E, se o Estado nasce das classes sociais, então será necessariamente o Estado da classe dominante, portanto na sociedade capitalista o Estado do patronato. Detendo o monopólio da violência legítima, o Estado serve à burguesia enquanto aparelho repressor da classe trabalhadora, atenuando a pujança da luta de classes.

Claro está, há quem não concorde com isto. E entre quem não concorda, podemos radicar as suas ideias em duas origens, a teoria burguesa do Estado e a teoria kautskista da reforma do sistema. Analizêmo-las criticamente.

As classes burguesa e pequeno burguesa, embora forçadas a admitir que o Estado é fruto das contradições de classes e da sua luta, deformam a teoria marxista uma vez que não compreendem, nem podem compreender por força da sua sobrevivência enquanto classe e da sua dominação, que as classes são inconciliáveis. Assim, consideram que as classes não são inconciliáveis, pelo que o papel do Estado é precisamente conciliar os interesses antagónicos das classes; desta forma, defendem que o Estado modera o conflito das classes conciliando-as, assim criando uma ordem baseada na conciliação das classes.

No entanto o Estado, sendo fruto da sociedade de classes antagónicas, como qualquer outra estrutura numa sociedade de classes é inseparável da luta de classes, logo serve uma classe sobre a outra, apoia o domínio de uma classe sobre a outra, pelo que moderar o conflito não é conciliar as classes mas sim retirar a uma classe os meios de resistir à dominação e exploração e dar à outra mais e melhores meios de o fazer: a ordem criada pelo Estado não se baseia na conciliação mas sim na legalização e consolidação da exploração.

Para que se compreenda a justeza da análise marxista e a falsidade da deformação burguesa, pensemos num exemplo bem actual: o actual Código de Trabalho. Embora exista quem o considere um bom contributo para as relações sociais de produção, nomeadamente o patronato (o que, por oposição às posições da maioria dos sindicatos, diz muito acerca de quem o Código de Trabalho serve) e os seus autores, o Governo, é para mim indiscutível que diversas alterações introduzidas para mais não servem que aprofundar a exploração dos trabalhadores pela burguesia: não constituem as limitações à acção sindical (nomeadamente a redução do número de delegados sindicais por empresa) e à contratação e negociação colectiva um retirar de meios e armas aos trabalhadores para se defenderem da exploração burguesa? Não constituem às alterações ao princípio de tratamento mais favorável ao trabalhador (no sentido de abrir excepções a este), aos fundamentos do despedimento por justa causa (no sentido de o facilitar), à mobilidade funcional e espacial, ao direito à greve, para referir apenas alguns exemplos, o aprofundar da exploração dos trabalhadores? Penso que a resposta a estas questões é indubitavelmente afirmativa.

Para mim, o facto do Estado constituir um instrumento de exploração ao serviço da burguesia confirma-se igualmente noutro exemplo, como as privatizações levadas a cabo pelos partidos da burguesia alternadamente, que mais não é que o retirar de direitos aos trabalhadores, entregando-os nas mãos da burguesia, para que converta o que eram direitos em negócios lucrativos. Por último (porque os exemplos dariam para um livro), quando o Estado, sob a mentira da crise económica, impõe aos trabalhadores pesados sacrifícios, queda do poder de compra, venda do património do Estado (logo do povo) e pobreza, enquanto a burguesia lucra cada vez mais (a título de exemplo, o capitalista Belmiro de Azevedo triplicou os lucros no último ano, e os lucros dos bancos multiplicaram-se até níveis há muito não vistos), é impossível falar em conciliação.


A segunda grande deformação, de mais difícil compreensão, da teoria marxista do Estado vem de Kautsky. Embora este concorde que o Estado é um instrumento de dominação e que as classes são inconciliáveis, entende que a emancipação do proletariado é possível através das instituições do Estado burguês, mantendo intacto o aparelho do Estado burguês (ou seja, não através de processos revolucionários mas reformistas, sociais-democratas).

No entanto, se o Estado é fruto de classes inconciliáveis e, sendo inseparável da luta de classes, serve uma contra a outra, é óbvio que a emancipação do proletariado exige a revolução violenta visando a eliminação física da burguesia (ou seja, a eliminação do que fisicamente constitui a burguesia como classe, a propriedade dos meios de produção) e a destruição do Estado que a sustenta, substituindo a ditadura da burguesia pela ditadura do proletariado.

Na minha opinião, a comum, embora simplista, afirmação de que os Partidos Comunistas, onde chegaram ao poder, só o conseguiram pela violência e pelas armas, constitui se analisada em profundidade a refutação da deformação de Kautsky. Porque se os Partidos do proletariado, ou partidos progressistas no geral, só alcançaram e mantiveram o poder pela violência revolucionária, é porque tal é impossível sem a supressão revolucionária da burguesia e a instauração da ditadura do proletariado.
Penso que dois exemplos que confirmam esta reflexão são o Chile no passado e a Venezuela no presente: após Salvador Allende ser eleito Presidente do Chile e dar início a progressistas reformas, sem eliminar a burguesia e o seu Estado, a manutenção do controle deste por parte daquela levou a que, através do controlo sobre o exército, a burguesia orquestrasse o golpe de Estado, destruísse os direitos recém conquistados e reinstalasse a ditadura da burguesia na sua forma mais extrema, o fascismo.

No caso venezuelano, embora Hugo Chávez tenha sido eleito presidente (eleição essa recentemente reconfirmada em referendo) e encetado reformas progressistas, tendo deixado intacto o aparelho do Estado burguês, foi já alvo de um golpe de Estado preconizado pela burguesia, através das associações patronais, bem como das altas patentes do exército; embora esse golpe tenha sido revertido pela vontade popular, o boicote burguês continuou, com a manipulação de sindicatos com vista a execução de greves e paralisações, além do supracitado referendo, que acabou por relegitimar Chávez. E muito embora ainda se mantenha como presidente, diversas têm sido as tentativas de o derrubar, verificando-se sim que diminuem à medida que o Estado é tomado.



Estão, portanto, verificados vários aspectos.
  1. Primeiro, que não é nunca de surpreender a actuação violenta das forças de segurança do Estado face aos trabalhadores, porque é esse o seu papel e razão de ser, a proveito da burguesia.
  2. Segundo, que inclusivé a acção internacional do Estado serve os interesses do patronato nacional.
  3. Terceiro, que sendo os interesses das classes antagónicos e inconciliáveis, então nunca o Estado pode ter o propósito de conciliar as classes, mas de atenuar a força de uma em benefício da outra.
  4. Quarto, que nunca o sistema social pode ser transformado, sem que seja derrubado o Estado e erigido um novo, que sirva a nova classe em ascenção no processo revolucionário.





Segunda-feira, 12 de Março de 2007
Sobre a violência...

"A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas ao leito do rio que a contém
Ninguém chama de violento.
A tempestade que faz dobrar as bétulas

É tida como violenta

E a tempestade que faz dobrar

Os dorsos dos operarios na rua?"

(Bertolt Brecht)


Foto: www.trekearth.com/gallery/Asia/China/photo110.htm


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Publicado por Alfredo às 15:08
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Quem Se Defende...

Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta,
para este há um parágrafo

Que diz: ele agiu em legítima defesa.
Mas

O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come,
e quem não come o suficiente

Morre lentamente.
Durante os anos todos em que morre

Não lhe é permitido se defender.

(Bertolt Brecht)

Foto: www.getf.org/millennium/IMAGES/HUNGER.GIF

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Publicado por Alfredo às 15:04
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Terça-feira, 6 de Março de 2007
Nada será como antes...: das mudanças interrompidas e do reinício.

"Tem sempre presente que a pele se enruga, o cabelo embranquece, os dias convertem-se em anos...
Mas o que é importante não muda; a tua força e convicção não têm idade.
O teu espírito é como qualquer teia de aranha.
Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida.
Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.
Enquanto estejas viva, sente-te viva.
Se sentes saudades do que fazias, volta a fazê-lo.
Não vivas de fotografias amarelecidas...
Continua, quando todos esperam que desistas.
Não deixes que enferruje o ferro que existe em ti.
Faz com que em vez de pena, te tenham respeito.
Quanto não consigas correr através dos anos, trota.
Quando não consigas trotar, caminha.
Quando não conseguires caminhar, usa uma bengala.
Mas nunca te detenhas"
(não digo o autor, é uma vergonha, mas o texto serve o propósito)


Bom, serve este pequeno textito para dar início a novo artigo, mais uma vez sobre a mudança. Desenganem-se se vos ocorrer que um artigo sobre a mudança remeta para o anterior artigo relativo a mudança e enamoramento; aqui, interessa-me somente a mudança por si só, o enamoramento terá que ficar para depois (embora se perspective um exercício interessante, ligar os dois artigos...)

Quiçá esteja sempre a vir à baila porque, embora se reconheça a necessidade de dadas mudanças em determinados momentos, ela seja sempre difícil de aceitar, portanto sendo muitas vezes adiada.
Ou talvez porque por vezes é aceite a cabo, mas algo de interessante surge e o indivíduo acaba por lhe dedicar mais do que o "suposto", e adia as mudanças que operáva, por algo que poderá ou não valer a pena. Mais ainda que valha muito, se interrompe tal importante processo, então o seu valor perde-se na inconsistência.
Talvez porque o indivíduo não tivésse efectivamente aceite a mudança, e somente o fizésse por saber que tinha de ser, embora não o desejásse.

"Que se acautelem os resistentes crónicos às mudanças, os que temem perder o seguro pelo inseguro, os que se fecham na sua concha por medo dos contágios e das contaminações com a diferença e o desafio, os que amealham pela segurança, os que nunca arriscam com medo de se desintegrarem ou perderem referências, os que não se aventuram em caminhos desconhecidos e se guardam cuidadosamente do imprevisto. Porque, no fim, mesmo os mais cautelosos e apegados à eternidade das suas crenças e dos seus hábitos, estarão diferentes."
(Ana Vieira e Castro, jornalista)

O que interessa, efectivamente, é a contradição entre impulso e resistência à mudança. Porque se acumulam tensões, frustrações, insatisfação, vazio, falta de sentido, é sentida necessidade de mudar algumas coisas. No entanto, a pessoa resiste fortemente a essa mudança, porque o desconhecido é sempre assustador, face a algo que embora insatisfatório, é conhecido. Porque embora possa desagradar, é sempre mais fácil acomodar-se com os seus defeitos e insatisfações, que levar a cabo a dificil tarefa de se explorar e descobrir o que se perdeu, quando e onde (tal como, é preferível o inferno conhecido que o paraíso desconhecido).

E é uma tarefa dificil porque envolve deixar para trás coisas que lhe são caras, modos de ser e viver, recordações, alegrias e tristezas, essencialmente uma forma de ser e estar a que há muito está habituado e com a qual se sente protegido, ainda que insatisfeito, trocando-a por um caminho desconhecido, que embora promissor e desejável, é pavorosamente intangível.

Portanto, vai adiando, e adiando, e adiando. É facil. É facil, quando o indivíduo já está a mudar o que o desagrada, encontrar um qualquer motivo que faça adiar uma vez mais. Porque está tenso e insatisfeito, sente necessidade de outras coisas, começa a percorrer esse caminho, mas como talvez não tenha sido ainda acumulada insatisfação suficiente para não mais parar, algo interessante surge e, como a energia para se dedicar a algo não é infinita, desloca a energia que aplicáva à mudança para este novo elemento que surgiu. Como se pudesse, de algum modo, por interessante que seja, substituir as mudanças de que necessita.

Mas não pode. Nada pode. Quando muito pode complementar, ou vir por arrasto com a mudança, mas não se lhe pode substituir. E a pessoa até se pode enganar a si própria, convencer-se de que já levou a cabo a mudança e agora está a viver uma coisa nova, ou então que esta novidade é importante e necessária à mudança. Até pode, em dada medida ser, mas não é fundamental, embora por vezes possa parecer; mas essencialmente parecer-lhe-á porque lhe permite uma vez mais adiar, como diz o povo, "o pior cego é o que não quer ver".

Embora possa ir adiando, a tensão volta a acumular-se e sentirá novamente a necessidade de retomar o processo. Até pode ir fazendo pequenas mudanças, que dêm algum tempo de satisfação, mas ao não transformar o essencial, a insatisfação voltará cedo ou tarde. E, espera-se, retoma o caminho, hipoteticamente desta vez até ao fim.

Como explicitado na trancrição acima, goste-se ou não, a vida muda e exige mudança. Desta forma, a questão não é se se muda ou não, mas como se encara a mudança. Pode fazê-lo resistindo e usando a sua força para fazer prevalecer a nossa vontade, ou escolhendo tornar-se maleável e deixando-se fluir com o processo. Uma coisa é certa, parece-me, quanto maior fôr a resistência à mudança, numa tentativa de manter o controlo sobre todos os acontecimentos da vida, maior será, cedo ou tarde, o embate e a tensão causada pelo desgaste de nadar contra a corrente.

Assim, se é inevitável, o fundamental é o indivíduo ser capaz de aceitar como positivo e nadar, não contra, mas com a corrente. O problema é que muitas vezes não dá pela necessidade de mudar, ou vai resistindo, e quando depois se torna inadiável, está paralisado.

Porque embora haja mudanças súbitas e terríveis, como o falecimento de alguém ou a perda do emprego, há mil e uma pequenas coisas que vão afectando a pessoa sem que dê por isso, particularmente os que mais obstinadamente resistem.
Sejam os amigos sejam os inimigos; sejam as pessoas com quem se cruza e lhe dão uma palavra, um gesto, um momento, ou as que o agridem ou magoam; uma conversa, uma imagem, um acontecimento. Tudo se vai inculcando, ainda que o empurre para o fundo da consciência.

E tudo se vai acumulando, até chegar a um momento de insatisfação total que não sabe de onde vem, trazido por uma sucessão de acontecimentos que se perde no tempo, e dá por si a desejar ardentemente mudar tudo, que qualquer coisa aconteça, livrando-o do exasperante impasse em que nada acontece. Tudo parece vazio e sem sentido, insatisfatório, esgotado, entediante, prendendo-o a uma realidade que já não lhe serve.

Embora estas crises existenciais muitas vezes pareçam incompreensíveis, não sabe de onde vêm, como já visto resultam não de um acaso, mas de uma sucessão de factores acumulados. Portanto, as ditas crises totais dar-se-ão principalmente naqueles que acumulam tudo e resistem, confiantes na sua força. Mas que força é essa que, valendo-o nuns momentos, cedo ou tarde o lança no desespero? Não é força, é fraqueza...

Portanto, as crises que parecem não vir de lado algum, na verdade vêm de todo o lado, porque vêm do fundo do seu ser, vêm, por assim dizer, de uma história de vida acumulada. Como se de um aterro sanitário se tratasse, vêm de todas as insatisfações, desilusões, tristezas, sofrimentos, todo o lixo que infelizmente perspassou a sua existência, acumulado. Acumula porque é forte, porque não quer coisas novas que abalem as suas confortáveis certezas, até que, como visto em tudo o anteriormente escrito, essas certezas vão por água abaixo. Porque qualquer aterro é limitado, cedo ou tarde o lixo começa a transbordar e damos de caras com ele, feio, podre, nauseabundo.

Espero que convença, a quem precise de ser convencido, que os aterros sanitários estão fora de moda, e que o que se faz hoje em dia é reciclar. Portanto, aproveitar a energia negativa acumulada e torná-la positiva, encarar as mudanças como algo de bom, libertar-se das certezas que tanta incerteza trazem um dia e... viver.



Para quem não gosta de "politiquices e politiqueiros"

O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, corrupto
e lacaio dos exploradores do povo."

Nada é impossível de Mudar

"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."

Poemas de Bertolt Brecht, retirados de http://www.culturabrasil.org/brechtantologia.htm
Foto:
www.evlks.de/aktuelles/spektrum/4164.html


Publicado por Alfredo às 15:43
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Segunda-feira, 5 de Março de 2007
Alguns registos da jornada de luta anti-fascista de 03/03/2007
Ainda sobre o dia 3 de Março, andei pelo YouTube à procura de filmagens dessa grande jornada de luta. Naturalmente, o que me mais agradaria seria encontrar filmagens que permitissem comparar as atitudes dos grupos presentes. No entanto, as filmagens que encontrei têm todas a mesma origem e somente mostram, no essencial, o nosso grupo, não se vendo as saudações fascistas e os vivas a salazar. Se e quando conseguir encontrar alguma coisa, actualizo este texto.

Um pouco da Grândola



E a resposta


Algo que devia ser incontestável, fascismo nunca mais!


Mas afinal até há quem o queira de volta...

Como já havia referido no anterior artigo sobre este dia, a comunicação social é uma vergonha. Nada mostra do que se passou, e toma claro partido pelos saudosistas do fascismo. A título de exemplo, aqui fica a peça que a SIC fez sobre aquela tarde: nota-se bem que não é entrevistado um único anti-fascista, procurando-se mostrar que não somos bons da cabeça, aquela gente quer o museu e pronto e não vai fazer mal nenhum, e também não mostra as saudações nazi-fascistas, embora mostre a mulher que berrava viva salazar, que é quem distribuia os panfletos que no outro artigo referi...
Gostei especialmente da senhora que diz que "vêm fazer uma revolta contra os de Santa Comba"! Pois é minha senhora, foi o que lhe disseram não foi, e acreditou não foi, e não questionou não foi, tal como no passado não foi, e lincháva-nos não era? O obscurantismo continua, mas a luta também!
Obrigado à comunicação social pelos favores ao fascismo.

E assim um bocadinho a brincar, mas ao mesmo tempo muito a sério, encontrei esta pérolazinha do "Contra-Informação", sobre o Salazar. Tem algum interesse, porque se os noticiários não mostraram a realidade, esta pequena metáfora transmite bem melhor o ambiente que se viveu, e o pensamento e comportamento das massas arrebanhadas pelos fascistas. A diferença essencial é que na vida real nós é que cantávamos, as massas era mais assim tipo uivar...


Publicado por Alfredo às 15:06
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Sábado, 3 de Março de 2007
Contra o fascismo, a luta continua!
Hoje, 3 de Março, de 2007, tive a oportunidade de participar numa grandiosa jornada de luta contra o fascismo e seus saudosistas, em Sta Comba Dão. Contra a intenção da Câmara Municipal de Sta Comba Dão de construir um "museu" a Salazar, cuidadosa e sabiamente apelidado de "Centro de Estudos do Estado Novo".

Mas que centro de estudos se constrói numa casa com somente duas salas, sendo que uma se destina unicamente a objectos pessoais do fascista? Que centro de estudos se constrói quando toda a documentação pertinente está noutros locais, como a Torre do Tombo, e para lá não será transladada?

Não se constrói um centro de estudos, não se constrói um museu, constrói-se sim um santuário para a peregrinação de saudosos fascistas.

Algumas pessoas a quem falei desta iniciativa até me disseram que não compreendiam o porquê do protesto, entendendo que o museu até poderia servir para um melhor conhecimento do que foi a ditadura fascista em Portugal, que nomeadamente poderia servir para os mais jovens aprenderem, já que pouco sabem desse período.

Essas pessoas deviam ter hoje estado em Sta Comba Dão... Tal como os que acham que o fascismo é coisa que está morta e enterrada. Deviam ter lá estado, para ouvirem os vivas a Salazar, por entre saudações nazis... Não tendo essas pessoas lá estado, e tendo eu visto já as notícias na televisão que, ao contrário do que cheguei a esperar a meio da tarde, não conseguiram mostrar a dimensão do que se passou, apeteceu-me escrever isto, talvez percebam alguma coisa...

Se observarem com atenção, penso que qualquer um(a) poderá perceber que se tem vindo a dar uma cuidada limpeza histórica de branqueamento do fascismo e seus crimes. Se abrirem um manual escolar de história, não verão uma alusão à ditadura fascista, mas sim ao regime corporativo, ou quando muito autoritário... Se ligarem a televisão, até há quem considere Salazar o maior português de sempre, pela RTP apelidado "salvador ou ditador", há quem o defenda publicamente no canal do Estado.

E é neste branqueamento do fascismo que se insere a construção deste "museu", que só por acaso até é apoiado pela Frente Nacional. Que não será museu de coisa alguma relacionada com o regime e seus crimes, mas sim do indivíduo que esteve à sua frente, que nada teve de salvador nem sequer como suposto génio financeiro (se eu tivesse colónias para escravizar e pilhar também salvava as finanças de qualquer país)... Que será um local de perpetuação da memória de um criminoso, para que os seus saudosistas lá lhe dirijam as suas honrarias.

Seria, sem dúvida, útil um museu dedicado ao fascismo, aos seus crimes, à resistência... Mas esse, não sei bem porquê, ninguém parece interessado em erguer. Não estão interessados porque quem tem estado à frente deste país são os mesmos que têm potenciado a lavagem histórica do fascismo.

Uma vez mais, os que acham que o museu não tem problema nenhum, que até seria bom para educar o povo, que o fascismo está morto e não volta, repito que deveriam lá ter estado esta tarde.

Talvez aí percebessem porque não pode este museu ser construído, talvez percebessem que o fascismo está vivo e bem vivo, ainda que latente, à espera, talvez percebessem que hoje, como ontem e amanhã, é urgente lembrar o que foi realmente o regime e continuar a lutar. Talvez percebessem... ou talvez não percebessem nada.

Algumas coisas ficar-me-ão, sem dúvida, na memória. Ficará a ignorante estupidez duma populaça que, quais ovelhas, se deixa levar por uma vintena de fascistas, gritando vivas a Salazar entre saudações nazis enquanto cantavam o Hino Nacional, como se os anti-fascistas não fossem patriotas. Ficará também na minha memória os grupos de miúdos que nos insultavam, sem saber o que estavam a defender. Ficará o panfleto fascista que li, cujos autores fascistas não se coibiram de distribuir pela turba. Ficará a imagem dum puto negro que fazia a saudação nazi, pobre coitado desconhecendo que o regime que hoje defendeu, noutro tempo chicoteou e escravizou, quem sabe, os seus avós. Ficará a fotografia mental dos nazis e fascistas infiltrados na populaça e incentivando-a, tão identificáveis que é de pasmar que GNR e comunicação social afirmem que lá não estavam. Ficarão os insultos, os "comunistas", os "vermelhos", os "vão pra vossa terra", os "chulos", os "vão trabalhar", os "filhos da puta", os "vão pro alentejo", os "não valem nada". Ficarão as ameaças, os ovos lançados, as tentativas de agressão, os uivos ululantes de ovelhas teleguiadas por fascistas, os panfletos nazis, as provocações às quais ninguém, ao contrário do relatado pela SIC, respondeu, embora muita vontade houvesse.

Ficar-me-á na memória a tristeza de ver tanta gente que nada sabe, que é enganada e que gosta de o ser, que defende e apregoa o que não compreende, que se deixa manipular, como deixou durante todo o regime.

Ficar-me-á na memória o nojo, a raiva, a fúria, a impotência, a sensação indescritível de a escassos 20 metros ver na minha frente ser feita a saudação nazi por tanta "gente", de ouvir vivas a Salazar, sabendo que ali e naquele momento nada havia a fazer senão resistir à provocação.

Fica-me agora a triste incerteza de não saber se se conseguirá que amigos e amigas percebam a necessidade de lutar contra esta gente, contra o que defendem, contra a lavagem histórica do regime fascista em Portugal. A incerteza de não saber se perceberão, e menos ainda se se juntarão um dia a esta luta.

Mas fica-me também a certeza da necessidade de continuar a lutar. Com muitos camaradas, com todos os progressistas, com os democratas, informar, esclarecer, combater. Porque o nazi-fascismo está vivo e de boa saúde, ainda que escondido, é preciso trazer cada vez mais amigos e amigas para as fileiras dos que combatem pela liberdade, contra a besta fascista.

A certeza de que é uma luta que está para durar. Que virá o dia em que o fascismo se reerguerá em toda a sua fúria. E que, inequivocamente, muitos mil lhe darão combate, na batalha das batalhas, na guerra pela liberdade e igualdade.

Até que tombe o último democrata ou seja destruído o último fascista,
A LUTA CONTINUA

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Essencialmente, para o que me for apetecendo. Ideias sobre a sociedade, coisas da sociologia, análise de questões políticas... Comentários à actualidade, assuntos pessoais relativizados e quando me apetecer, também dá para chatear alguém.
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Sociólogo, 28 anos, residente em Coimbra. Bolseiro de investigação na área do insucesso e abandono escolares no Ensino Superior. Mestrando em "Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo".
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